Eram
4:50 da manhã e eu dirigia com os faróis altos. Enxergava quilômetros de asfalto
azul e árvores infinitas.
Eu
me sentia vazia. Não era um bom sentimento porque era um sentimento vazio.
Pensei na adolescência e nos planos e nas esperanças. Pensei com arrependimentos mas sem saudades. Meus vetores de passado e futuro se cancelavam.
Meus
vetores se cancelavam literalmente. O peso do meu pé no acelerador só
compensava a resistência do ar e dos pneus contra o asfalto azul.
. . .
Os
meus sentidos se acendiam aos poucos, a vibração da festa e do barulho e do
álcool deixavam os meus poros e tudo se tornava mais claro.
Às vezes eu me envolvo mais com os filmes que eu assisto do que com a vida que eu levo. Às vezes eu acho que eu levo a vida por entretenimento.
Abri os olhos já
abertos e não enxerguei nada além das trilhas infinita de tracinhos azuis que
piscavam em sequência.
. . .
De uma vez, sem pensar, abri todas as janelas do carro. O vento úmido entrava no meu
cabelo e meu cabelo entrava na frente dos meus olhos. Eu era a única coisa
imóvel, dedos firmes no volante.
Esse
momento é da minha vida de verdade. Sem sorrisos e palavras e planos,
sentimentos, ambições e justificativas. Sem vontades. Sem propósito. Vazia.
. . .
Atravessei
a ponte e estiquei os dedos gelados.
Se
eu tivesse um conversível arrancaria a capota de abril a setembro.
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