sábado, 15 de fevereiro de 2014

Eram 4:50 da manhã e eu dirigia com os faróis altos. Enxergava quilômetros de asfalto azul e árvores infinitas.

Eu me sentia vazia. Não era um bom sentimento porque era um sentimento vazio. Pensei na adolescência e nos planos e nas esperanças. Pensei com arrependimentos mas sem saudades. Meus vetores de passado e futuro se cancelavam.

Meus vetores se cancelavam literalmente. O peso do meu pé no acelerador só compensava a resistência do ar e dos pneus contra o asfalto azul.
. . .

Os meus sentidos se acendiam aos poucos, a vibração da festa e do barulho e do álcool deixavam os meus poros e tudo se tornava mais claro. 

Às vezes eu me envolvo mais com os filmes que eu assisto do que com a vida que eu levo. Às vezes eu acho que eu levo a vida por entretenimento.

Abri os olhos já abertos e não enxerguei nada além das trilhas infinita de tracinhos azuis que piscavam em sequência.
. . .

De uma vez, sem pensar, abri todas as janelas do carro. O vento úmido entrava no meu cabelo e meu cabelo entrava na frente dos meus olhos. Eu era a única coisa imóvel, dedos firmes no volante.

Esse momento é da minha vida de verdade. Sem sorrisos e palavras e planos, sentimentos, ambições e justificativas. Sem vontades. Sem propósito. Vazia. 

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Atravessei a ponte e estiquei os dedos gelados.

Se eu tivesse um conversível arrancaria a capota de abril a setembro.