Imaginava o gato branco sentindo ásperas as pedras quentes sob as suas patas cor-de-rosa. Eu nunca vi um gato cansado, ofegante, pensei.
O mar trazia um vento carregado de respingos das ondas, ar salgado com gostinho de caranguejo.
Eu me recostei contra a parede cheia de pontas, um pé pendurado pela muretinha e o outro sentindo a aspereza das pedras quentes. As sandálias eu larguei por ali. Estavam cheias de areia.
Senti inevitável tomar para mim aquilo. Aquele momento. Uma fotografia, um parágrafo, um desenho, uns rabiscos. Registrar seria impossível sem esquartejar a completude. Quem sabe apurar os sentidos para garantir o destaque na memória? Não; a grande verdade é o passar do presente. Futuro não existe. Senti dificuldade de entender a minha dificuldade, fugia-me o raciocínio.
O gato saltou para dentro de um buraco na cerca-viva do outro lado da rua estreita e meu raciocínio conseguiu escapar.
O gato saltou para dentro de um buraco na cerca-viva do outro lado da rua estreita e meu raciocínio conseguiu escapar.