sábado, 31 de agosto de 2013

Finde

parte 1

Lauro, com seu cigarro de palha apagado pendurado no canto da boca, decidiu ficar no gol.
"Quero ficar na sombra", explicou, mas explicação suficiente era a sua pele cor de leite desnatado: branco, meio transparente, puxando pro azul.
Ele separou os pés, dobrando os joelhos, abriu os braços e apertou firme o cigarro entre os lábios quando Marcos veio driblando pelo gramado, descalço, os óculos escuros tortos pendurados no nariz e um sorriso que se transformou num "Uuuu!" coletivo ao ver a bola desviada pelo travessão para os galhos do alto da árvore no fundo do quintal.
"Aah, acabou a brincadeira", gritou Lauro com falsa decepção, acendendo o cigarro com um isqueiro preto vindo sabe-se lá de onde e caminhando em direção à geladeira.

domingo, 4 de agosto de 2013

Arrastando os chinelos, Abel entrou na cozinha e despencou numa cadeira. Alice estava em pé à pia, de costas para ele. Perguntou o que ela estava fazendo.
— Meu cafezinho. Tô com dor de cabeça.
— Que horas são?
— Seis e vinte.
— Hm.
— Da manhã.
— Sério?
— Sério.
Pequena pausa.
— Sabe quando você tá jogando videogame de corrida e fica muito para trás aí ultrapassa quem estava em primeiro lugar e fica uhul, só que ainda tá umas três voltas atrás? É a gente com o nosso sono.
Ela jogou o coador dentro da pia e virou-se para ele, apoiando-se na bancada, o café quentinho na gigante caneca do Pato Donald. Sorriu, os olhos ainda meio fechados.
Ele perguntou quais os planos do dia.
— Eu vou pra piscina.
— Mas tá tão gelada.
— Eu tô com calor.
Tâmara chegou vestindo uma camiseta azul marinho que chegava aos seus joelhos e meias brancas. Foi direto ao fogão acender o cigarro que trazia entre os dedos. Uma mecha do cabelo assustadoramente rebelde chegou a dois centímetros da chama azul.
— Não fuma na cozinha... — a voz de Alice foi diminuindo, ela já tinha dito isso tantas vezes. — Ah, foda-se — Terminou o café em silêncio.