– Até hoje, mesmo depois de todos esses anos, eu ainda sinto que eu estou copiando alguém em tudo o que eu faço.
Ela estava reclinada na gigante cadeira acolchoada, um cotovelo apoiado na bancada translúcida bem no meio do cômodo branco, de pé direito alto, iluminado por duas janelas que tomavam por inteiro uma das paredes. O sol da manhã de domingo pintava de dourado o verde da palmeira atrás dela, toque de cor no ambiente quase monocromático.
O copo de chá gelado esquecido há tempo escorria umidade condensada e molhava despercebido a pilha de papéis ao seu lado.
– Isso já me incomodou mais. Também já me incomodou menos. A minha única alternativa é ignorar.
Balançava o lápis entre os dedos e fazia rabiscos paralelos num pedaço de papel de vez em quando.
Ao final de cada frase ela fixava o olhar em mim. Medir a minha reação não era sinal de insegurança, era o hábito de alguém que passou a vida buscando a onisciência.
– Ignorar, ou começar do zero. Ser criada por lobos. Não, me criar sozinha. Só assim vou saber se os meus pensamentos são meus, não dos lobos.
Ela derramava essas inseguranças em ritmo constante e com absoluta segurança. A voz firme, um pouco rouca, vinha do fundo da garganta.
Falei talvez pela primeira vez desde que nos sentamos ali:
– E o que você vai fazer?
Me olhou interrogativa.
– Ignorar? Ou recomeçar? – perguntei.
Ela se endireitou na cadeira.
– Recomeçar como, caralho? Tô umas décadas atrasada.
Mencionei reincarnação. Ela se calou por um minuto inteiro antes de se levantar e sair, passando por mim e me deixando sozinho com o celular que piscava sobre a mesa e o discreto farfalhar da palmeira em miniatura.
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