Com o passar da noite o tempo foi rareando, meus cílios ficaram mais e mais compridos, até que manter os olhos abertos era uma tarefa impossível e um esforço inútil.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Imaginava o gato branco sentindo ásperas as pedras quentes sob as suas patas cor-de-rosa. Eu nunca vi um gato cansado, ofegante, pensei.
O mar trazia um vento carregado de respingos das ondas, ar salgado com gostinho de caranguejo.
Eu me recostei contra a parede cheia de pontas, um pé pendurado pela muretinha e o outro sentindo a aspereza das pedras quentes. As sandálias eu larguei por ali. Estavam cheias de areia.
Senti inevitável tomar para mim aquilo. Aquele momento. Uma fotografia, um parágrafo, um desenho, uns rabiscos. Registrar seria impossível sem esquartejar a completude. Quem sabe apurar os sentidos para garantir o destaque na memória? Não; a grande verdade é o passar do presente. Futuro não existe. Senti dificuldade de entender a minha dificuldade, fugia-me o raciocínio.
O gato saltou para dentro de um buraco na cerca-viva do outro lado da rua estreita e meu raciocínio conseguiu escapar.
O gato saltou para dentro de um buraco na cerca-viva do outro lado da rua estreita e meu raciocínio conseguiu escapar.
sábado, 31 de agosto de 2013
Finde
parte 1
Lauro, com seu cigarro de palha apagado pendurado no canto da boca, decidiu ficar no gol.
Lauro, com seu cigarro de palha apagado pendurado no canto da boca, decidiu ficar no gol.
"Quero ficar na sombra", explicou, mas explicação suficiente era a sua pele cor de leite desnatado: branco, meio transparente, puxando pro azul.
Ele separou os pés, dobrando os joelhos, abriu os braços e apertou firme o cigarro entre os lábios quando Marcos veio driblando pelo gramado, descalço, os óculos escuros tortos pendurados no nariz e um sorriso que se transformou num "Uuuu!" coletivo ao ver a bola desviada pelo travessão para os galhos do alto da árvore no fundo do quintal.
"Aah, acabou a brincadeira", gritou Lauro com falsa decepção, acendendo o cigarro com um isqueiro preto vindo sabe-se lá de onde e caminhando em direção à geladeira.
domingo, 4 de agosto de 2013
Arrastando os chinelos, Abel entrou na cozinha e despencou numa cadeira. Alice estava em pé à pia, de costas para ele. Perguntou o que ela estava fazendo.
— Meu cafezinho. Tô com dor de cabeça.
— Que horas são?
— Seis e vinte.
— Hm.
— Da manhã.
— Sério?
— Sério.
Pequena pausa.
— Sabe quando você tá jogando videogame de corrida e fica muito para trás aí ultrapassa quem estava em primeiro lugar e fica uhul, só que ainda tá umas três voltas atrás? É a gente com o nosso sono.
— Que horas são?
— Seis e vinte.
— Hm.
— Da manhã.
— Sério?
— Sério.
Pequena pausa.
— Sabe quando você tá jogando videogame de corrida e fica muito para trás aí ultrapassa quem estava em primeiro lugar e fica uhul, só que ainda tá umas três voltas atrás? É a gente com o nosso sono.
Ela jogou o coador dentro da pia e virou-se para ele, apoiando-se na bancada, o café quentinho na gigante caneca do Pato Donald. Sorriu, os olhos ainda meio fechados.
Ele perguntou quais os planos do dia.
Ele perguntou quais os planos do dia.
— Eu vou pra piscina.
— Mas tá tão gelada.
— Eu tô com calor.
— Mas tá tão gelada.
— Eu tô com calor.
Tâmara chegou vestindo uma camiseta azul marinho que chegava aos seus joelhos e meias brancas. Foi direto ao fogão acender o cigarro que trazia entre os dedos. Uma mecha do cabelo assustadoramente rebelde chegou a dois centímetros da chama azul.
— Não fuma na cozinha... — a voz de Alice foi diminuindo, ela já tinha dito isso tantas vezes. — Ah, foda-se — Terminou o café em silêncio.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
– Até hoje, mesmo depois de todos esses anos, eu ainda sinto que eu estou copiando alguém em tudo o que eu faço.
Ela estava reclinada na gigante cadeira acolchoada, um cotovelo apoiado na bancada translúcida bem no meio do cômodo branco, de pé direito alto, iluminado por duas janelas que tomavam por inteiro uma das paredes. O sol da manhã de domingo pintava de dourado o verde da palmeira atrás dela, toque de cor no ambiente quase monocromático.
O copo de chá gelado esquecido há tempo escorria umidade condensada e molhava despercebido a pilha de papéis ao seu lado.
– Isso já me incomodou mais. Também já me incomodou menos. A minha única alternativa é ignorar.
Balançava o lápis entre os dedos e fazia rabiscos paralelos num pedaço de papel de vez em quando.
Ao final de cada frase ela fixava o olhar em mim. Medir a minha reação não era sinal de insegurança, era o hábito de alguém que passou a vida buscando a onisciência.
– Ignorar, ou começar do zero. Ser criada por lobos. Não, me criar sozinha. Só assim vou saber se os meus pensamentos são meus, não dos lobos.
Ela derramava essas inseguranças em ritmo constante e com absoluta segurança. A voz firme, um pouco rouca, vinha do fundo da garganta.
Falei talvez pela primeira vez desde que nos sentamos ali:
– E o que você vai fazer?
Me olhou interrogativa.
– Ignorar? Ou recomeçar? – perguntei.
Ela se endireitou na cadeira.
– Recomeçar como, caralho? Tô umas décadas atrasada.
Mencionei reincarnação. Ela se calou por um minuto inteiro antes de se levantar e sair, passando por mim e me deixando sozinho com o celular que piscava sobre a mesa e o discreto farfalhar da palmeira em miniatura.
sexta-feira, 22 de março de 2013
Era como se eu sentasse todo dia esperando eu mesma acontecer.
domingo, 13 de janeiro de 2013
26ºC
"Oi." Eu estava atrasada, como sempre. Mas dessa vez só dez minutos.
Ele sorria para mim de uma das mesinhas com guarda-sol espalhadas em frente ao pequeno café de esquina. Eu não via os seus olhos por trás das lentes escuras, através da nuvem de fumaça branca adocicada.
"Menta, é?"
Ele sorriu mostrando os dentinhos amarelos. Justificou:
"Comprei pra você", disse, dando um peteleco no maço colocado em pé sobre a mesa, derrubando o isqueiro laranja equilibrado em cima dele.
Eu sentei no ferro deliciosamente gelado da cadeira e acendi um cigarro.
"Muito obrigada."
_
"Você tá com uma cara ótima."
Eu nunca conseguia decidir se o que ele dizia era ou não sarcasmo.
Em resposta sorri e me inclinei por cima da mesa, levantando os meus próprios óculos escuros e arregalei os olhos fundos de olheiras de quem tem dormido quatro horas por noite. Ele levantou as sobrancelhas.
"Licença" interrompeu o garçom, trazendo meio inseguro sobre a bandeja duas xícaras fumegando com o café mais cheiroso da minha semana.
_
"Quais são os planos pra hoje?", ele perguntou, batendo a cinza com o dedo em cima da calçada, ignorando o cinzeiro à nossa frente.
"Tomar café, almoçar e voltar pra casa e para as minhas obrigações."
"Que obrigações?"
"Páginas e mais páginas em branco."
"Olha só você fingindo que não tá adorando ser assim ocupada."
Verdade.
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"Fui andar na praia hoje."
"Por quê?" Fiquei surpresa porque ainda era cedo para se ter feito qualquer coisa.
"Não conseguia dormir"
"E deu certo?"
"Como assim?"
"Conseguiu dormir?"
"Claro que não, eu saí."
Fiz um hmmmm na falta de vontade de formular o que eu estava pensando.
_
"Nunca tinha vindo aqui", eu comentei, olhando em volta.
"Gostou?"
"Esse café me deixou muito feliz."
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