Há horas ela se passava por produtiva e concentrada, digitando consistentemente enquanto checava anotações dispersas na mesa de madeira, alternadas com folhas impressas de texto compacto. Posando para ninguém além de si mesma e dos fantasmas atrás das portas.
O sol se punha antes do previsto atrás de nuvens gordas e pretas.
Quase que sem perceber, deixou os olhos vagarem pelo quarto, que acabaram encontrando o quadrinho pendurado na parede em frente. Quadrado, não muito maior que seu rosto, composto apenas de pequenos e controlados riscos diagonais do pincel, em maioria azul marinho, quase cinza, quase chumbo, mais uma dúzia de riscos vermelho-alaranjado. Não foi um presente. Demorou um tempo para encontrar a lembrança da origem da pequena pintura: uma feira de rua, em alguma cidade de praia.
A chuva que a ventania anunciava há tanto tempo finalmente começou a golpear as janelas e o telhado. Girou na cadeira e, afastando um pouco a cortina, observou a rua escura aos poucos encher-se dos pingos grossos que caíam do céu, sacudiam as folhas das árvores, uma a uma, e distorcia a luz dos postes, parecendo incendiar-se ao se aproximarem da lâmpada laranja. Sua respiração esbranquiçou o vidro gelado. Nada conseguia transpassar o som da chuva que empurrava seus tímpanos. Era como uma barreira imergindo tudo e todos, separando cada um em seu pequeno refúgio seco e morno.
A luz piscou uma vez. Ela, por reflexo, olhou em volta, congelada, procurando por alguma coisa. Voltou-se para a rua escura. A luz dos postes se apagaram um milésimo de segundo antes do que as do apartamento inteiro.
Imediatamente a escuridão preencheu todo o espaço, e ela encontrou-se arregalando os olhos como que para tentar penetrar a muralha invisível; sem efeito. Todo o mundo agora consistia no barulho da chuva e do seu coração disparado.
Tentou se convencer de que tudo continuava no mesmo lugar, apesar de não ter como confirmar esse fato. Tentou ignorar o terror infantil do desconhecido que fazia seu coração quase quebrar suas costelas, enquanto bombeava em excesso sangue para o cérebro, carregando uma dose exagereada de adrenalina que subjugava toda a sua racionalidade. A pressão nos seus ouvidos superou o som da chuva; sua boca estava semiaberta como que preparada para gritar. Sentiu um calor a envolver num abraço totalmente indesejado. Desejou como nunca não estar sozinha.
Sua consciência flutuava ao fundo, incapaz de tomar controle da situação. Ela enxergou-se estática no meio de um quarto escuro, as costas pressionadas contra o vidro gelado da janela, escaneando avidamente a escuridão, preparada para algo que ela sabia que não iria acontecer.
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Por um milhonésimo de segundo, tão rápido que seu cérebro só conseguiu processar depois de o momento já ter passado, a luz se acendeu, amarelada e fraca. E se apagou de novo.
Aquela imagem ficou gravada por alguns segundos no fundo das suas retinas. Tudo estava como deveria estar, pelo que ela pode ver.
Tateou seu caminho até a cama e enrolou-se no cobertor, imóvel, até o dia amanhecer. Então, dormiu.