quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Observou o sol escorrer por toda a extensão da mesa de madeira antes de começar a esquentar a ponta dos seus dedos compridos, congelados ali desde que ele a deixara sozinha. Durante todo esse tempo ouviu distantes notas aleatórias de um piano imaginário. Respirava em silêncio para não despertar as poltronas e os tapetes. Perdeu a conta da pulsação discreta no seu peito. Piscava imperceptivelmente os olhos baixos, meio fechados, sob o cabelo vermelho. O gelo dentro do copo já derretera há muito tempo, deixando apenas um líquido translúcido sem cor definida.

O som profundo e claro de um corpo se chocando contra a grama alta do jardim da frente não lhe provocou reação nenhuma.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Vertigem

Meu coração estava sincronizado com o tique-taque do relógio. Meus pés simetricamente alinhados com as listras do chão, meio milímetro atrás da fronteira entre a sala e o terraço. 

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O terraço era um retângulo áureo, suspenso 23 andares acima da cidade. Percorri uma linha reta a passos idênticos até a borda enquanto o vento perpendicular levantava o meu cabelo. Parei, pendurei a cabeça por cima da beirada e olhei para baixo.

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Imediatamente senti todo o mundo atrás de mim desmanchar-se em partículas gigantescas, dando uma mostruosa cambalhota por cima da minha cabeça.
Uma avalanche muda em câmera lenta. Perdi a noção dos limites entre mim e o exterior. A gravidade se dobrou atráves do meu corpo e me impulsionou para frente, para baixo, para fora.

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Fechei os olhos e levantei a cabeça.

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Em um milésimo de segundo  tudo se endireitou, exceto as batidas descompassadas do meu coração.