domingo, 16 de dezembro de 2012

Todo dia a mesma coisa: o sol ficava diluído por algumas horas naquela cinza leitoso que cobria o céu. Essa camada invariavelmente desaparecia e dava lugar a um azul tão intenso, tão brilhante e quente quanto possível. A poluição da cidade não era mais que um dado ocasional no jornal. 
Sentia o ar eufórico da possibilidade dentro e fora do peito. 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Silvia sorriu um sorriso um pouco maior do que aquele que estava em seu rosto há horas, os olhinhos apertadinhos. Seu pé comprido e descalço alcançava a mão gelada de Lauro, que puxava seus dedinhos um a um, distraído, enquanto soltava a fumaça devagar.
Marcos mantinha os olhos bem fechados e cantarolava baixinho a letra da música, batucando no joelho. 
Silvia encolheu a perna e levantou de uma vez, anunciando, já fora do quarto e a meio caminho do banheiro (de onde ninguém mais a ouviria):
—Vou fazer xixi.
Acendeu a luz e deu de cara com si mesma, bochechas e olhos vermelhos, mais ainda em contraste com o azul limpo e claro de suas íris, quase escondidas. Enrolou o cabelo, um bicho enorme e sem forma, num coque.
—Sou linda.
Esqueceu o xixi e voltou rebolando em ziguezague pelo corredor, balançando o vestidinho rosa, colocando um pé na frente do outro.
— Lauro Almeida Xavier! — convocou, esticando o braço para o amigo espalhado no tapete, com a bunda em cima de três almofadas. Ele segurou sua mão, e, ao invés de levantar-se, a puxou para baixo.
Ela desmontou, tropeçou e caiu em cima de Marcos, que bolava o próximo, espalhando todo o conteúdo equilibrado sobre o papel de seda no tapete felpudo.
Tudo que Silvia fez foi rir, aquela risada de jogar a cabeça para trás e sacudir os ombros estreitos, que vinha do centro do diafragma e ocupava o quarto todo.

~~~

Catou cinco peras, um cacho de uvas, três maçãs e três kiwis na geladeira, enfileirou-os na pia por ordem de tamanho e pôs-se a cortar cubinhos tão idênticos quanto possível. As uvas partiu ao meio, no meridiano, deixando-as devidamente desencaroçadas.
— Eu aqui querendo uma pizza, um hamburguer, e você me vem com fruta.
— Me dá isso aqui — ela tomou o cigarro de Lauro e tirou a vasilha do alcance de sua mão. — Seu ingrato. Não vai comer também não. Vai fazer sua comida sozinho.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

1/6/2011
Encostei os pés no chão com certa dificuldade. Estava mais quente do que eu imaginava. A base da minha coluna reclamou, inflamada. Estiquei os dedos enrolados em volta das unhas inesperadamente limpas. Desejava uma movimentação de ar, uma brisa qualquer. Sentia o ar frio do quarto pesado e morto. Uns raios de sol atravessavam a cortina fechada.

terça-feira, 1 de maio de 2012

MAIS DAQUELE VERÃO
III

Muitas horas mais tarde, Marcos berrava da cozinha, furioso:
– Puta que pariu, onde vocês enfiaram o queijo?
Teoricamente, os três estavam fazendo uma pizza. Silvia achou uma boa ideia, pegou uma receita qualquer na internet, foi comprar os ingredientes e desistiu logo depois de esticarem a massa. Lauro só ficou sentado o tempo todo na mesa da cozinha, comendo amendoim.
– Silvia, Silvinha, amorzinho – ele saiu gritando pela casa. – Me diz que você comprou queijo.
Ela estava deitada no sofá, olhando para o teto, balançando um pé ao ritmo da bossa nova que saía do radinho na mesinha ao lado.
– Tá na geladeira.
Estava. Ele espalhou o molho de tomate com os dedos em cima da massa irregular e quebradiça, jogou todas as fatias de queijo do pacote, umas rodelas de tomate, rasgou uns pedaços de presunto e virou (sem querer) metade do pacotinho de orégano de uma vez, fazendo o melhor que pôde para espalhar uniformemente no resto do que seria uma das melhores pizzas de suas vidas.
Abriu o forno já quente, meteu o tabuleiro lá dentro e torceu para tudo dar certo.

~

Começou a chover, alguém encontrou um CD gravado dos Rolling Stones, que o rádio vagabundo não conseguiu tocar, e eles resolveram ir fumar na varanda, enquanto analisavam a profundidade emocional dos personagens de American Pie. A pizza ficou pronta e estava ótima.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

MAIS DAQUELE VERÃO
II

A água da piscina estava perfeitamente gelada, ondulando na metade da barriga queimada de sol de Lauro. Ele deu o último gole do seu drink cheio de leite condensado e outras frescuras. A preguiça falou muito mais alto, e daqui pra frente era só cachaça mesmo, ao alcance das mãos. E já são quatro horas. Eu acho. Afundou a cabeça na água, soltando o ar pelo nariz em enormes bolhas.
Levantou com o cabelo pingando e cobrindo todo o rosto. Jogou tudo para o lado a tempo de ver Silvia largando no chão o vestido de florzinhas, que cobria o biquíni branco, e pulando de pé no outro extremo da piscina, tampando o nariz e apertando os olhos.
Ela nadou até ele, e apoiou os braços na borda. Esticou um braço em direção à garrafa, passada a ela logo depois que Lauro deu um gole ele próprio.
– Eca – ela disse com uma careta de língua para fora, devolvendo a garrafa.
– Cadê o Marcos? – ele perguntou, enquanto Silvia observava seus próprios pezinhos balançarem lentamente debaixo d'água.
–Sei lá. Fazendo cocô.
Lauro sorriu e afundou mais uma vez.

domingo, 29 de abril de 2012

MAIS DAQUELE VERÃO
I

– De que é o seu sorvete? – perguntou Silvia, enquanto enfiava uma pazinha de madeira no copo do amigo.
– Cupuaçu – respondeu Marcos. – Achei exótico.
– Vai lá comprar um pra mim? – ela sorriu, mostrando os dentinhos muito brancos e arregalando os olhos muito azuis que contrastavam maravilhosamente com o volumoso e oitentista cabelo preto.
Marcos sorriu de volta, com a boca ainda cheia de sorvete.
– Não.
Ela arrastou impaciente os chinelos no chão, fazendo a areia chiar contra o calçamento de pedra.
Marcos se espreguiçou na cadeira de plástico, esticando os braços e as pernas, e olhou para o céu azul, e suas duas nuvens branquinhas. A colher de Silvia deu mais um mergulho no seu sorvete. Ele não se importou.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Há horas ela se passava por produtiva e concentrada, digitando consistentemente enquanto checava anotações dispersas na mesa de madeira, alternadas com folhas impressas de texto compacto. Posando para ninguém além de si mesma e dos fantasmas atrás das portas.

O sol se punha antes do previsto atrás de nuvens gordas e pretas.

Quase que sem perceber, deixou os olhos vagarem pelo quarto, que acabaram encontrando o quadrinho pendurado na parede em frente. Quadrado, não muito maior que seu rosto, composto apenas de pequenos e controlados riscos diagonais do pincel, em maioria azul marinho, quase cinza, quase chumbo, mais uma dúzia de riscos vermelho-alaranjado. Não foi um presente. Demorou um tempo para encontrar a lembrança da origem da pequena pintura: uma feira de rua, em alguma cidade de praia.

A chuva que a ventania anunciava há tanto tempo finalmente começou a golpear as janelas e o telhado. Girou na cadeira e, afastando um  pouco a cortina, observou a rua escura aos poucos encher-se dos pingos grossos que caíam do céu, sacudiam as folhas das árvores, uma a uma, e distorcia a luz dos postes, parecendo incendiar-se ao se aproximarem da lâmpada laranja. Sua respiração esbranquiçou o vidro gelado. Nada conseguia transpassar o som da chuva que empurrava seus tímpanos. Era como uma barreira imergindo tudo e todos, separando cada um em seu pequeno refúgio seco e morno.

A luz piscou uma vez. Ela, por reflexo, olhou em volta, congelada, procurando por alguma coisa. Voltou-se para a rua escura. A luz dos postes se apagaram um milésimo de segundo antes do que as do apartamento inteiro.

Imediatamente a escuridão preencheu todo o espaço, e ela encontrou-se arregalando os olhos como que para tentar penetrar a muralha invisível; sem efeito. Todo o mundo agora consistia no barulho da chuva e do seu coração disparado.

Tentou se convencer de que tudo continuava no mesmo lugar, apesar de não ter como confirmar esse fato. Tentou ignorar o terror infantil do desconhecido que fazia seu coração quase quebrar suas costelas, enquanto bombeava em excesso sangue para o cérebro, carregando uma dose exagereada de adrenalina que subjugava toda a sua racionalidade. A pressão nos seus ouvidos superou o som da chuva; sua boca estava semiaberta como que preparada para gritar. Sentiu um calor a envolver num abraço totalmente indesejado. Desejou como nunca não estar sozinha.

Sua consciência flutuava ao fundo, incapaz de tomar controle da situação. Ela enxergou-se estática no meio de um quarto escuro, as costas pressionadas contra o vidro gelado da janela, escaneando avidamente a escuridão, preparada para algo que ela sabia que não iria acontecer.

~~

Por um milhonésimo de segundo, tão rápido que seu cérebro só conseguiu processar depois de o momento já ter passado, a luz se acendeu, amarelada e fraca. E se apagou de novo.

Aquela imagem ficou gravada por alguns segundos no fundo das suas retinas. Tudo estava como deveria estar, pelo que ela pode ver.

Tateou seu caminho até a cama e enrolou-se no cobertor, imóvel, até o dia amanhecer. Então, dormiu.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Observou o sol escorrer por toda a extensão da mesa de madeira antes de começar a esquentar a ponta dos seus dedos compridos, congelados ali desde que ele a deixara sozinha. Durante todo esse tempo ouviu distantes notas aleatórias de um piano imaginário. Respirava em silêncio para não despertar as poltronas e os tapetes. Perdeu a conta da pulsação discreta no seu peito. Piscava imperceptivelmente os olhos baixos, meio fechados, sob o cabelo vermelho. O gelo dentro do copo já derretera há muito tempo, deixando apenas um líquido translúcido sem cor definida.

O som profundo e claro de um corpo se chocando contra a grama alta do jardim da frente não lhe provocou reação nenhuma.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Vertigem

Meu coração estava sincronizado com o tique-taque do relógio. Meus pés simetricamente alinhados com as listras do chão, meio milímetro atrás da fronteira entre a sala e o terraço. 

-

O terraço era um retângulo áureo, suspenso 23 andares acima da cidade. Percorri uma linha reta a passos idênticos até a borda enquanto o vento perpendicular levantava o meu cabelo. Parei, pendurei a cabeça por cima da beirada e olhei para baixo.

-

Imediatamente senti todo o mundo atrás de mim desmanchar-se em partículas gigantescas, dando uma mostruosa cambalhota por cima da minha cabeça.
Uma avalanche muda em câmera lenta. Perdi a noção dos limites entre mim e o exterior. A gravidade se dobrou atráves do meu corpo e me impulsionou para frente, para baixo, para fora.

-

Fechei os olhos e levantei a cabeça.

-

Em um milésimo de segundo  tudo se endireitou, exceto as batidas descompassadas do meu coração.