Silvia sorriu um sorriso um pouco maior do que aquele que estava em seu rosto há horas, os olhinhos apertadinhos. Seu pé comprido e descalço alcançava a mão gelada de Lauro, que puxava seus dedinhos um a um, distraído, enquanto soltava a fumaça devagar.
Marcos mantinha os olhos bem fechados e cantarolava baixinho a letra da música, batucando no joelho.
Silvia encolheu a perna e levantou de uma vez, anunciando, já fora do quarto e a meio caminho do banheiro (de onde ninguém mais a ouviria):
—Vou fazer xixi.
Acendeu a luz e deu de cara com si mesma, bochechas e olhos vermelhos, mais ainda em contraste com o azul limpo e claro de suas íris, quase escondidas. Enrolou o cabelo, um bicho enorme e sem forma, num coque.
—Sou linda.
Esqueceu o xixi e voltou rebolando em ziguezague pelo corredor, balançando o vestidinho rosa, colocando um pé na frente do outro.
— Lauro Almeida Xavier! — convocou, esticando o braço para o amigo espalhado no tapete, com a bunda em cima de três almofadas. Ele segurou sua mão, e, ao invés de levantar-se, a puxou para baixo.
Ela desmontou, tropeçou e caiu em cima de Marcos, que bolava o próximo, espalhando todo o conteúdo equilibrado sobre o papel de seda no tapete felpudo.
Tudo que Silvia fez foi rir, aquela risada de jogar a cabeça para trás e sacudir os ombros estreitos, que vinha do centro do diafragma e ocupava o quarto todo.
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Catou cinco peras, um cacho de uvas, três maçãs e três kiwis na geladeira, enfileirou-os na pia por ordem de tamanho e pôs-se a cortar cubinhos tão idênticos quanto possível. As uvas partiu ao meio, no meridiano, deixando-as devidamente desencaroçadas.
— Eu aqui querendo uma pizza, um hamburguer, e você me vem com fruta.
— Me dá isso aqui — ela tomou o cigarro de Lauro e tirou a vasilha do alcance de sua mão. — Seu ingrato. Não vai comer também não. Vai fazer sua comida sozinho.