terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O mato queimado ondulava sob o vento forte, ladeando a estrada de terra que ligava a varanda larga ao horizonte verde escuro. A casa de madeira rangia junto com a velha cadeira de balanço; um sujeito respirava com dificuldade, no ritmo do movimento suave da cadeira. Olhos transparentes, fixos e atentos.

Um segundo homem, ligeiramente mais novo, saiu pela porta aberta. Sua voz era o motor de um carro velho.

"Tem certeza?"

O outro nada respondeu, piscou lentamente e abaixou um pouco o queixo.
Levantou-se pesadamente, inspirando, rouco. Enquanto os dois atravessavam a varanda, as botas batendo contra a escada de tábuas tortas, a poeira fina caía das suas camisas amassadas.

O sol estava baixo e vermelho sangue quando sumiram no horizonte, a passo firme.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Tenho nojo da minha mediocridade. Das linhas imaginárias no chão, que me são muros de rocha e medo. Nojo do que me define e do que me atinge. Queria poder arrancar com os dentes pedaços do meu passado, com olhos vermelhos de ódio e contida bestialidade. Contento-me com tão pouco. As mãos ásperas de sujeira, de terror, de bactérias e esgoto, de partes do mundo que não são minhas. Controle? Não tenho controle sobre mim, sobre o que eu fiz e quero e penso. Controle. Me envolvem numa capa de mentiras, enxofre e lágrimas. Indiferença, isso que pedem e não recebem. Perfeição é um parâmetro palpável. Ganchos e correntes atravessam-me a pele, castrando meus movimentos e minhas vontades. O que falta é força e um caminho. O objetivo se perdeu.
Soltando os dedos um a um, deixando a vida para trás. A fumaça era azul e cintilava diante dos seus olhos fechados. Sentada numa rocha bem no meio da correnteza, sentindo tudo passar, de olhos fechados. E forçando um sorriso leve. O vento grosso quebrando nas bochechas. 

Foi virando poeira aos pouquinhos. Se misturou ao rio, nunca chegou ao mar. Alguns grãozinhos se prenderam às pedras que lembravam os seus olhos.
esquecer