DIÁRIO DE UM VERÃO QUE NUNCA ACONTECEU
pt. 2
A sala era indivisível com o minúsculo quintal nos fundos, a porta sempre aberta tomava uma parede inteira, balançando aquelas cortinas cor de água de coco. Um dos meus pés pendia do sofá de madeira, e roçava no tapete de palha, áspero e grosso. Meus olhos fechados refletiam o brilho cego do mar para o interior de minhas próprias pálpebras. O som das ondas era eterno nos meus ouvidos.
Não havia televisão na sala. Nem revistas. Apenas uma estante estreita com quatro prateleiras que continham exatamente 14 livros em francês, mofados, nunca abertos ou folheados. O único paralelo com o tempo presente era um disco da Amy Winehouse que tocava repetidas vezes no rádio em cima da pia do banheiro, distante.
Eu sentei direito, esticando as pernas até a mesinha cheia de manchas, e esperei. Cocei um pulso, para revelar o perfeito contraste da pele sob a pulseira de pano e o resto do meu corpo. Ele chegou e me ofereceu o copo de coca. Seu nariz aparecia debaixo do cabelo denso coberto de pequenas manchas brancas da pele descascada. Dei um gole e um suspiro mental. Fiz um comentário qualquer. Minha voz saiu rouca. Ele desviou os olhos e repousou a cabeça na parede.
Você estava dormindo. As cortinas enroscavam-se.
pt. 2
A sala era indivisível com o minúsculo quintal nos fundos, a porta sempre aberta tomava uma parede inteira, balançando aquelas cortinas cor de água de coco. Um dos meus pés pendia do sofá de madeira, e roçava no tapete de palha, áspero e grosso. Meus olhos fechados refletiam o brilho cego do mar para o interior de minhas próprias pálpebras. O som das ondas era eterno nos meus ouvidos.
Não havia televisão na sala. Nem revistas. Apenas uma estante estreita com quatro prateleiras que continham exatamente 14 livros em francês, mofados, nunca abertos ou folheados. O único paralelo com o tempo presente era um disco da Amy Winehouse que tocava repetidas vezes no rádio em cima da pia do banheiro, distante.
Eu sentei direito, esticando as pernas até a mesinha cheia de manchas, e esperei. Cocei um pulso, para revelar o perfeito contraste da pele sob a pulseira de pano e o resto do meu corpo. Ele chegou e me ofereceu o copo de coca. Seu nariz aparecia debaixo do cabelo denso coberto de pequenas manchas brancas da pele descascada. Dei um gole e um suspiro mental. Fiz um comentário qualquer. Minha voz saiu rouca. Ele desviou os olhos e repousou a cabeça na parede.
Você estava dormindo. As cortinas enroscavam-se.
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