quinta-feira, 26 de junho de 2014

METEOROLOGIA DE UM CÉU SEM NUVENS E A MELANCOLIA DO EQUINÓCIO DE OUTONO: MAIS UM ANO QUE MORRE AOS POUCOS

I. O céu limpo e gelado me dava o conforto da permanência, da imobilidade. Todos os dias o ciclo se completava sem interferências, do preto ao azulado, um punhado de estrelas apagadas, um instante quase branco antes do perfeito azul celeste. Ao final, os raios baixos do sol atravessavam a poluição e revelavam aquela faixa escura e pesada junto ao horizonte, sob o infinito amarelado; céu de nectarina. A lua subia gigante e laranja brilhante, acesa contra a sujeira da cidade.

II. Eu sentia a noite cada vez mais cedo, mais comprida e mais gelada. O sol vermelho descia no horizonte um minuto mais cedo que no dia anterior. As transições me causavam um pânico inconsciente; desconfiava que o solstício não teria forças para conter e reverter o que o equinócio desencadeou. As noites se aproximavam uma da da outra, esmagando o dia entre elas. Um dia, o sol brilharia por dois minutos. No próximo, a imobilidade seria completa, e o ciclo seria perfeito.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Eram 4:50 da manhã e eu dirigia com os faróis altos. Enxergava quilômetros de asfalto azul e árvores infinitas.

Eu me sentia vazia. Não era um bom sentimento porque era um sentimento vazio. Pensei na adolescência e nos planos e nas esperanças. Pensei com arrependimentos mas sem saudades. Meus vetores de passado e futuro se cancelavam.

Meus vetores se cancelavam literalmente. O peso do meu pé no acelerador só compensava a resistência do ar e dos pneus contra o asfalto azul.
. . .

Os meus sentidos se acendiam aos poucos, a vibração da festa e do barulho e do álcool deixavam os meus poros e tudo se tornava mais claro. 

Às vezes eu me envolvo mais com os filmes que eu assisto do que com a vida que eu levo. Às vezes eu acho que eu levo a vida por entretenimento.

Abri os olhos já abertos e não enxerguei nada além das trilhas infinita de tracinhos azuis que piscavam em sequência.
. . .

De uma vez, sem pensar, abri todas as janelas do carro. O vento úmido entrava no meu cabelo e meu cabelo entrava na frente dos meus olhos. Eu era a única coisa imóvel, dedos firmes no volante.

Esse momento é da minha vida de verdade. Sem sorrisos e palavras e planos, sentimentos, ambições e justificativas. Sem vontades. Sem propósito. Vazia. 

. . .

Atravessei a ponte e estiquei os dedos gelados.

Se eu tivesse um conversível arrancaria a capota de abril a setembro.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Com o passar da noite o tempo foi rareando, meus cílios ficaram mais e mais compridos, até que manter os olhos abertos era uma tarefa impossível e um esforço inútil.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Imaginava o gato branco sentindo ásperas as pedras quentes sob as suas patas cor-de-rosa. Eu nunca vi um gato cansado, ofegante, pensei.
O mar trazia um vento carregado de respingos das ondas, ar salgado com gostinho de caranguejo.
Eu me recostei contra a parede cheia de pontas, um pé pendurado pela muretinha e o outro sentindo a aspereza das pedras quentes. As sandálias eu larguei por ali. Estavam cheias de areia.
Senti inevitável tomar para mim aquilo. Aquele momento. Uma fotografia, um parágrafo, um desenho, uns rabiscos. Registrar seria impossível sem esquartejar a completude. Quem sabe apurar os sentidos para garantir o destaque na memória? Não; a grande verdade é o passar do presente. Futuro não existe. Senti dificuldade de entender a minha dificuldade, fugia-me o raciocínio.
O gato saltou para dentro de um buraco na cerca-viva do outro lado da rua estreita e meu raciocínio conseguiu escapar.

sábado, 31 de agosto de 2013

Finde

parte 1

Lauro, com seu cigarro de palha apagado pendurado no canto da boca, decidiu ficar no gol.
"Quero ficar na sombra", explicou, mas explicação suficiente era a sua pele cor de leite desnatado: branco, meio transparente, puxando pro azul.
Ele separou os pés, dobrando os joelhos, abriu os braços e apertou firme o cigarro entre os lábios quando Marcos veio driblando pelo gramado, descalço, os óculos escuros tortos pendurados no nariz e um sorriso que se transformou num "Uuuu!" coletivo ao ver a bola desviada pelo travessão para os galhos do alto da árvore no fundo do quintal.
"Aah, acabou a brincadeira", gritou Lauro com falsa decepção, acendendo o cigarro com um isqueiro preto vindo sabe-se lá de onde e caminhando em direção à geladeira.

domingo, 4 de agosto de 2013

Arrastando os chinelos, Abel entrou na cozinha e despencou numa cadeira. Alice estava em pé à pia, de costas para ele. Perguntou o que ela estava fazendo.
— Meu cafezinho. Tô com dor de cabeça.
— Que horas são?
— Seis e vinte.
— Hm.
— Da manhã.
— Sério?
— Sério.
Pequena pausa.
— Sabe quando você tá jogando videogame de corrida e fica muito para trás aí ultrapassa quem estava em primeiro lugar e fica uhul, só que ainda tá umas três voltas atrás? É a gente com o nosso sono.
Ela jogou o coador dentro da pia e virou-se para ele, apoiando-se na bancada, o café quentinho na gigante caneca do Pato Donald. Sorriu, os olhos ainda meio fechados.
Ele perguntou quais os planos do dia.
— Eu vou pra piscina.
— Mas tá tão gelada.
— Eu tô com calor.
Tâmara chegou vestindo uma camiseta azul marinho que chegava aos seus joelhos e meias brancas. Foi direto ao fogão acender o cigarro que trazia entre os dedos. Uma mecha do cabelo assustadoramente rebelde chegou a dois centímetros da chama azul.
— Não fuma na cozinha... — a voz de Alice foi diminuindo, ela já tinha dito isso tantas vezes. — Ah, foda-se — Terminou o café em silêncio.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

– Até hoje, mesmo depois de todos esses anos, eu ainda sinto que eu estou copiando alguém em tudo o que eu faço.
Ela estava reclinada na gigante cadeira acolchoada, um cotovelo apoiado na bancada translúcida bem no meio do cômodo branco, de pé direito alto, iluminado por duas janelas que tomavam por inteiro uma das paredes. O sol da manhã de domingo pintava de dourado o verde da palmeira atrás dela, toque de cor no ambiente quase monocromático.
O copo de chá gelado esquecido há tempo escorria umidade condensada e molhava despercebido a pilha de papéis ao seu lado.
– Isso já me incomodou mais. Também já me incomodou menos. A minha única alternativa é ignorar.
Balançava o lápis entre os dedos e fazia rabiscos paralelos num pedaço de papel de vez em quando.
Ao final de cada frase ela fixava o olhar em mim. Medir a minha reação não era sinal de insegurança, era o hábito de alguém que passou a vida buscando a onisciência. 
– Ignorar, ou começar do zero. Ser criada por lobos. Não, me criar sozinha. Só assim vou saber se os meus pensamentos são meus, não dos lobos.
Ela derramava essas inseguranças em ritmo constante e com absoluta segurança. A voz firme, um pouco rouca, vinha do fundo da garganta.
Falei talvez pela primeira vez desde que nos sentamos ali:
– E o que você vai fazer?
Me olhou interrogativa.
– Ignorar? Ou recomeçar? – perguntei.
Ela se endireitou na cadeira.
– Recomeçar como, caralho? Tô umas décadas atrasada.
Mencionei reincarnação. Ela se calou por um minuto inteiro antes de se levantar e sair, passando por mim e me deixando sozinho com o celular que piscava sobre a mesa e o discreto farfalhar da palmeira em miniatura.